terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Novos prodígios do Xadrez

Manaus, 3 de agosto de 1997
Amazonas em Tempo – Caderno de Esportes – Página D5
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Novos prodígios do Xadrez

O Amazonas não pára de revelar talentos. E o xadrez não é a exceção. Promotor de jogos comunitários de xadrez, José Francisco de Magalhães aposta em três garotos considerados fenômenos: os irmãos Dauton e Diego Amoêdo e Gualter Braga de Aguiar Neto. Simples e amigos, eles falam com autoridade de adultos ao esporte, como música clássica, literatura, política e o que almejam no xadrez, mostrando que seus talentos ultrapassam em muito os limites do tabuleiro.


Ele diz que não é gênio, admite ser um aluno apenas regular que gosta de aprontar nas aulas, pratica futebol – até fraturou o braço direito por causa disso - tem ídolos e torce pelo Vasco da Gama.
Mas as coisas comuns do adolescente enxadrista Dauton Alves Amoêdo, nascido em Manaus, no dia 5 de Junho de 1982 terminam aí. Ele admira seu esporte predileto com uma visão critica, fala de política como um adulto, curte música clássica mais que qualquer outro gênero, e, de forma simples e direta revela seu sonho; ser Campeão Amazonense e uma expressão nacional do xadrez, “sem pretensão de atingir o status de um grande mestre”.
Grande promessa do Xadrez Amazonense, Dauton participa de torneios comunitários e, como a maioria dos talentos do Estado, sofre com a falta de patrocínio. “Há dois anos deixo de participar de torneios nacionais em minha categoria por falta de passagens aéreas”, queixa-se.
Estudante da 8ª Série do colégio da Policia Militar, Dauton recebeu o Em Tempo, em sua residência, na Rua 10 de julho em Petrópolis. Com o braço direito na tipóia, resultado de uma queda de mau jeito numa pelada, assemelhava-se ao personagem Floriano, do romance Cazuza de Viriato Corrêa.
Não parecia um menino. Extremamente sério – só após a entrevista exibiu um esboço de sorriso – parecia um homem acostumado a relacionar, o que é comum em quem jogo xadrez. Diante das perguntas, não tinha pressa alguma de responder. Ficava um instante silencioso, a meditar. E depois com a segurança de mestre dava a resposta.

O que o levou a praticar o xadrez desde quando?
Desde os 10 anos de idade eu era um sujeito esquentado, temperamental mesmo, tratava mal as pessoas quando as coisas não saíam bem. O xadrez foi uma espécie de terapia, Em algum tempo melhorei muito meu comportamento.

O xadrez é um esporte para pessoas de inteligência superior?
Xadrez não é jogo para gênio. Qualquer pessoa normal tem condições de praticar bem o xadrez. Para mim é uma prática gostosa.

Qual a parte do jogo que você gosta?
Do meio jogo. É onde o jogador mostra seu talento e onde se exige mais raciocínio. O início é decoreba e o final uma questão de estratégia.

Você pretende continuar a praticar o xadrez até o nível de campeão ou vai continuar a encará-lo como terapia?
Quero ser campeão Amazonense e uma expressão a nível nacional, sem pretensão de atingir o status de um grande mestre.

De que forma espera conseguir isso?
Melhorando cada vez mais, mostrando que mereço mais espaço e apoio. Infelizmente, o xadrez praticamente não tem patrocínio, talvez por ser um esporte considerado seleto. Há dois anos deixo de participar de torneio em nível nacional em minha categoria por falta de passagens.

Do que você gosta além do xadrez?
Considero-me um adolescente normal. Não sou muito bem comportado na escola, apronto de vez em quando e converso muito com os colegas. Às vezes os professores me vêem desligados e pensam que estou testando-os. osto de ler, principalmente o Almanaque Abril, gosto de futebol e sou torcedor do Vasco da Gama.

Também gosta de música?
Legião Urbana, Cidade Negra, Bethoven, Mozart...

Porque música clássica? Meninos de sua idade geralmente gostam de discoteca...
Tem gente que acha que gostar de música clássica não é natural. É uma questão de gosto, de cultura. Ouvi a música clássica quando pequeno e gostei muito da forma que é ela feita. A discoteca também é uma forma de cultura. Tenho amigos que gostam de discoteca. Eu não me amarro muito. Entre uma discoteca e o boi, eu escolho o boi.

Para quem curte música erudita, política não deve ser uma coisa à parte. O que você entende dela?
Eu me interesso pela política porque nós, jovens, é que vamos dirigir o país no futuro. Então é preciso conhecê-la. Tenho participado de palestras e seminários sobre AIDS, Reforma Agrária, MST. Acho tudo isso muito interessante e elucidativo. Admiro a luta do PT em tornar melhor a vida do trabalhador brasileiro, o ideal do Lula, que se tornou o maior líder sindical. Sem desmerecer os outros partidos, e pelo que tenha lido, o PT foi a melhor coisa que aconteceu na política partidária do Brasil.

Se tivesse poder de mando, o que você faria no Brasil de hoje?
Poder de mando como tinha o Hitler?

Não. Se você fosse o presidente do Brasil.
Eu incrementaria a reforma agrária e deixaria de perseguir o funcionalismo público. Mudaria também a forma como manipulam os impostos e as verbas no país.

De que você não gosta?
Da hipocrisia e da burocracia. A burocracia compromete o conceito de humanidade. Muita gente morre porque não tem uma autorização ou um documento qualquer para ser socorrido. Muitos cidadãos penam para conseguir um benefício, e na maioria da vezes não o conseguem por falta de uma assinatura ou uma fichinha qualquer que o bom senso e razões humanitárias poderiam dispensar.

Qual o regime político ideal?
O capitalismo provou ser melhor que o socialismo. O importante nisso tudo é a liberdade individual. No caso da imprensa, a liberdade é fundamental. Já li em algum livro ou revista que alguém certa vez disse: é melhor um país sem governo e com jornais que um país com governos e sem jornais.

Destino afastou Diego do futebol

Diego tem nome de craque. O foi com a pretensão de praticar o esporte do ídolo argentino que há três anos ele foi à Vila Olímpica matricular-se nessa modalidade. Não Havia mais vaga nem parta tênis de mesa. Só restava o xadrez, que não fora muito procurado. Para não perder a viagem Diego matriculou-se nesse Esporte de elite. Hoje considerado a maior promessa do xadrez amazonense, Diego Alves Amoedo, 13 anos, não pensa mais no futebol, apesar de ainda torcer pelo Flamengo. “Se eu pudesse novamente voltar no tempo eu escolheria novamente o xadrez”.


Aluno da 6ª série do colégio da polícia militar, em Petrópolis, Diego pretende subir nos degraus mais altos do xadrez. “Quero ser campeão amazonense, Brasileiro, Sulamericano, enfim onde puder chegar. Todos me incentivam e acham que tenho condições de chegar lá. Por isso me empenho para corresponder a essa expectativa toda”, diz.
Porém admite ter ainda dúvida sobre seu futuro profissional relacionado aos seus estudos. “Estou indeciso em fazer Direito ou Engenharia Elétrica”. Em alguns aspectos, Diego possui pontos-de-vistas e gostos iguais ao do seu irmão mais velho, Dalton. No xadrez a sua opinião é a mesma de Dalton. Aprecia o meio jogo, onde se exige talento. “O início a gente decora e o final é uma conseqüência do meio jogo”, observa.
Gosta de leitura e especialmente de contos policiais e tragédias. “Mas meus preferidos são Shakespeare e Edgar Alan Poe”. Como Dauton, Diego admira o falecido vocalista da Legião Urbana Renato Russo. Gosto do que ele colocou nas letras. “Era o ideal da vida dele, como queria que o Brasil fosse”, analisa.
Também há diferenças em relação ao irmão. Diego não gosta de boi e aprecia bastante o pagode.
De gosto refinado o menino enxadrista critica duramente os políticos de esquerda que estão incentivando movimentos grevistas que ele define como “baderna”.
Por fim se fosse Presidente da República, que garante que mudaria a política salarial do país. “Os trabalhadores estão ganhando muito pouco. O policial está certo em querer mudar seu salário”.

Gualter quer escolinhas

Gualter Neto – formar-se em medicina e o título nacional são as pretensões do jovem Gualter Braga de Aguiar Neto, que só vai completar 15 anos no dia 21 de setembro. No entanto, já cursa o 1° ano científico no Colégio Dom Bosco, onde aprendeu a jogar xadrez por influência do pai Laerte Di Stephano Aguiar, também jogador de xadrez. Como os outros começou aos dez anos no auge do gosto pelo futebol, esporte que hoje ele só pratica esporadicamente. De conversa franca e de bem com a vida, esse morador da Praça Santos Dumont, 82, pretende estudar medicina, mas antes sonha ser campeão brasileiro de xadrez. Por isso, como as demais promessas de sua idade, espera patrocinadores e um maior apoio do governo. “O xadrez amazonense necessita de mais intercâmbio e os jogadores adquirirem mais experiência nacional. Aqui temos bons jogadores que podem desenvolver seu potencial até chegar títulos nacionais”, garante.

Como um caminho para o xadrez atrair patrocinadores e merecer mais atenção das autoridades, Gualter aponta a criação de escolinhas. Atualmente, só temos como locais de prática a Vila Olímpica e o Parque Dez observam. Apontados pelos coordenadores dos grupos do Parque Dez e Vila Olímpica como um dos jogadores que deve crescer muito nos próximos anos, Gualter não se considera gênio e afirma que o xadrez pode ser praticado por qualquer pessoa. “Como qualquer esporte, é uma questão de prática assídua, de estratégia e motivação”, ensina. Gualter revela preferências bem diferentes dos irmãos Amoêdo. Torce pelo São Paulo – e prefere no jogo de xadrez a parte final. “É quando existem menos peça no tabuleiro e se decidem as partidas”, justifica. Gualter também é mais popular em suas preferências; gosta de discoteca, curte pagode e aprecia o boi. E seu maior ídolo é o Grande Mestre Internacional Gary kasparov. Como grande experiência de sua vida, Gualter cita uma derrota nos jogos da juventude, em 95, em João Pessoa. “Foi contra um paulista que não recordo o nome. Perdi, mas foi uma das minhas melhores partidas. A vitória foi diante de um garoto do maranhão, lembra”. Averso a jogadores “vaidosos que subestimam os adversários”, Gualter tem como mensagem final um apelo á determinados políticos “que só pensam em si mesmo e em ganhar muito dinheiro”. “Eles deveriam pensar mais no povo que os elegeu”.

Mais que talentos

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