terça-feira, 6 de março de 2007

Pecado de Tatiana perdoado pelos irmãos evangélicos

Manaus, 15 de novembro de 1991.
Amazonas em tempo.
Tatiana Duarte.

Pecado de Tatiana perdoado pelos irmãos evangélicos

O esporte também tem suas curiosidades. Se jogar fosse pecado, talvez o Amazonas não tivesse tão cedo um representante de alto nível nessa modalidade. Pois esse risco nós poderíamos correr caso a enxadrista Tatiana Duarte seguisse o conselho de alguns “irmãos evangélicos” que não viam com bons olhos o fato de Tatiana jogar xadrez com aquela vontade toda que até lhe garantiu a classificação para cinco campeonatos mundiais e a sua consagração ao conquistar o tricampeonato.

Todo esse contratempo inicial na sua carreira aconteceu há algum tempo puxado por alguns membros da Igreja Assembléia de Deus, onde Tatiana freqüenta. “Mas eu procurei o pastor e ele me deu apoio, falou que o xadrez não era pecado coisa nenhuma, e me incentivou a continuar praticando”, lembra.

Ainda bem, pois, por causa dessa decisão, Tatiana Duarte pode mostrar sua capacidade em manipular rei, bispo, cavalo, peão, dama, torre e com isso conquistar tantos títulos na sua vida. Essa capacidade de Tatiana Duarte já foi além da fronteira. Ela já participou de 4 campeonatos Mundiais; Na Romênia em 88, ela ficou em 17°. Lugar; Em Porto Rico, em 89 ficou em 15°. Lugar; Nos Estados Unidos, ela conquistou a 11°. Posição. Em 90 na Polônia, Tatiana Duarte tinha grandes chances de ficar entre as dez primeiras, segundo ela própria, mas o vôo que tinha de pegar sairia um dia antes das partidas finais,e por isso teve que retornar ao Brasil.

No próximo ano, Tatiana participa do seu quinto campeonato mundial, desta vez na Alemanha. Ela obteve esse direito, ao conquistar, na semana passada, o tricampeonato no Pan-americano de xadrez, categoria 14anos. Tatiana considerou a competição fácil, derrotando as atletas Miriam Veras, Tatiana Ratcu, Érika kurihara, Adriana Miruaucha e Magali Pallares tornando-se a única enxadrista brasileira classificada para o mundial, antes mesmo do Campeonato Brasileiro que acontece em março.

Mas títulos mesmo, Tatiana já perdeu até as contas de quantos ganhou. Quando mostra com orgulho as medalhas é que dá para perceber que, apesar da idade, ela tem um currículo invejável. São mais de vinte medalhas de terceiro, segundo e primeiro lugares, conquistadas desde campeonatos Estudantis, passando por estaduais até pan-americanos.

Este talento inato de Tatiana recebe ajuda de outro fator; Dedicação. Ela dedica grande parte do seu tempo aos treinamentos, que são feitos durante os dias, ou em sua casa ou na sede da Federação Amazonense de Xadrez, sob a orientação de José Francisco Magalhães. Tatiana também pensa em investir no seu futuro. Pela manhã, ela estuda a 6ª série no Colégio Brasileiro, através de bolsa e à tarde faz computação, apesar de ainda não saber realmente o que vai fazer quando estiver mais velha.À Noite é a vez dos treinamentos. E aos domingos Tatiana vai à Igreja Assembléia de Deus. “Lá todos me apóiam, e quando há competições, eles oram para que eu consiga um bom desempenho”.

O talento inquestionável de Tatiana já surpreendeu muita gente, mas ainda não lhe trouxe as recompensas merecidas.Ela continua morando numa pequena casa no local conhecido como Bariri, com 19 pessoas. Apesar do grande numero de moradores Tatiana não se esquiva dos treinamentos. Toda noite religiosamente, ela se tranca no quarto da mãe Luz Maria Duarte e começa a treinar.

Apesar do perfeccionismo Tatiana Duarte, tem que adquirir mais conhecimento técnico, mas também através de uma leitura. “Gostaria de comprar um livro, chamado Informativo que é muito caro,”lamenta.

Mas pelo menos, ela já consegue fugir do estigma que segue os atletas Amazonenses. É que Tatiana conseguiu uma ajuda de custo da prefeitura de três salários mínimos, que lhe garantirá parcialmente as despesas pessoais, começando por um curso de Inglês e alemão que ela pretenda fazer. O aprendizado de idiomas é essencial para uma jogadora que já viajou várias vezes para outros países e necessita se comunicar com seus adversários e amigos que encontra nas competições.Esse intercâmbio já proporcionou a Tatiana a absorver vários métodos de xadrez e criar outros. Ela já tem até estilo próprio. “Nas partidas eu preparo tudo para depois atacar”, diz ela que o mais difícil é o início do jogo.

Paciência e boa vontade são qualidades essenciais para um enxadrista. No último pan-americano Tatiana chegou a ficar seis horas jogando uma partida. “É muito cansativo, e se você não tiver um bom preparo físico e controle emocional é bem difícil ganhar”. O sacrifício e o tempo que gasta treinando têm grandes chances de ter retorno. É que Tatiana não sonha pequeno, não! O que ela quer ser um dia é ser Mestre Internacional de xadrez, o grau máximo na vida de um enxadrista.

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